Textos curatoriais

Amilcar de Castro:

na dobra do mundo

Amilcar de Castro no MuBE, de Paulo Mendes da Rocha. Um encontro fundamental entre dois gigantes da arte brasileira. Esculturas que carregam uma expressiva vocação pública, aqui interagem com uma esplanada aberta. Praça atravessada por uma grande marquise de concreto protendido, que lhe dá escala, e constrói balizas visuais para as esculturas apresentadas na área externa. No caso de Amilcar: chapas de aço cor-ten que, pela ação de corte e dobra, se transformam em espaço, em planos de equilíbrio instável.

 

Atingindo tamanhos consideráveis, suas peças são, quase sempre, chapas únicas, sem encaixes, soldas ou parafusos. Isto é, feitas não pela adição de partes, e sim pelo gesto incisivo que espacializa planos íntegros. Planos que, então, se erguem como corpos estruturados – sem base, pousados diretamente sobre o chão –, em contraste com a horizontalidade da arquitetura. Na mesma medida, os guarda-corpos de ferro, do museu, são linhas de força que se expandem e se dobram, em semelhança com as linhas vivas das pinturas e esculturas do artista mineiro, criadoras de espaços. Pequenas frestas onde o mundo inteiro, metaforicamente, se dobra. E se abre.

 

Nas pinturas, Amilcar substitui o pincel por trinchas e vassouras, traçando gestos largos, em grandes formatos, que transcendem o controle manual, e impedem a realização de simples desenhos transmitidos diretamente do cérebro para as telas e papéis. Aqui, na galeria subterrânea do museu, começamos com pinturas mais ralas e vazias, cujos gestos estão no limite do esgarçamento, e chegamos a telas preenchidas por grandes massas negras, onde a espacialidade é construída pelo jogo entre o rigor mais contido das formas geométricas e o movimento expansivo e informe dos gestos. Percurso expositivo que termina na relação entre pequenas esculturas de corte e os desenhos de estudo que lhes servem de projeto.

 

Amilcar de Castro nunca submete a matéria sem considerar em profundidade a sua resistência. Ao contrário, trabalha-a num jogo de negociação permanente. Daí a ferrugem do aço, e a presença afirmada das massas – escultóricas e pictóricas –, a nos lembrar sempre do esforço e do custo que há em se traçar e se dobrar o corpo do mundo nas direções que desejamos. Afirmação poética do peso, que a marquise do MuBE também representa, à medida que comprime a praça, criando ali uma escala surpreendentemente doméstica, onde a esfera pública se mostra íntima.

 

A “vontade construtiva” que mobiliza os trabalhos de Amilcar e de Paulo é radical, e procura se opor aos costumes patrimonialistas de um país que trata os assuntos públicos por meio de relações pessoais, como trocas de “favor” . No preto e branco do artista, assim como no cinza do arquiteto, não há concessões sentimentais, ou cordiais. Sóbrias e desafiadoras, as suas respostas artísticas se baseiam no conceito virtuoso de projeto. Um projeto entendido como afirmação de desejos que se realizam em conformidade com a técnica e a matéria. Figurando, assim, a ideia de uma sociedade capaz de planejar seu futuro e medir as consequências dos seus atos, responsabilizando-se por eles. Algo que, no Brasil de hoje, volta a ter um urgente significado.

Guilherme Wisnik, curador da exposição

seu futuro e medir as consequências dos seus atos, responsabilizando-se por eles. Algo que, no Brasil de hoje, volta a ter um urgente significado.